A economista-chefe e CEO da B.Side Brasil, Andrea Damico, afirmou que a combinação entre a escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio e a perspectiva de juros elevados por mais tempo tem pressionado o mercado acionário brasileiro. Em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ela avaliou que a recente sequência de quedas do Ibovespa reflete um cenário global de maior aversão ao risco.
Segundo Damico, embora a alta do petróleo tenha beneficiado ações da Petrobras, o restante da bolsa sofreu com o movimento de risk-off observado nos mercados internacionais.
“O petróleo chegou a subir mais de 8% durante o dia e encerrou com alta próxima de 4%, após declarações de Donald Trump que ajudaram a reduzir parte das tensões. Ainda assim, o mercado continua preocupado com os impactos inflacionários desse cenário”, afirmou.
A economista explicou que a elevação das expectativas de inflação levou à abertura das curvas de juros tanto no exterior quanto no Brasil, reduzindo o apetite dos investidores por ativos de risco.
“Juros mais altos e menor disposição para assumir risco acabam penalizando a maior parte das ações. A Petrobras foi uma exceção, mas o restante do mercado reagiu negativamente”, disse.
Apesar da correção recente da bolsa, Damico ponderou que não é simples afirmar que os ativos brasileiros estejam baratos. Ela destacou que o Ibovespa já acumula queda superior a 10% em relação às máximas recentes, mas observou que a valorização do real amenizou parte dessa perda quando os ativos são analisados em dólar.
“O câmbio foi beneficiado pela melhora dos nossos termos de troca. Exportamos petróleo e grãos, e ambos tiveram valorização. Isso ajudou a manter o real próximo da faixa dos R$ 5, mesmo em um ambiente global mais adverso”, explicou.
A economista também chamou atenção para a saída de investidores estrangeiros da bolsa brasileira nas últimas semanas. Na avaliação dela, o movimento está relacionado ao fortalecimento da economia dos Estados Unidos.
“Os dados americanos continuam mostrando resiliência econômica e tivemos uma temporada de resultados corporativos bastante positiva. Isso acaba atraindo capital para os Estados Unidos, afetando não apenas o Brasil, mas também outros mercados emergentes”, afirmou.
Sobre a política monetária, Damico disse que o Banco Central está próximo do fim do atual ciclo de aperto monetário, mas alertou que a trajetória do petróleo será determinante para definir os próximos passos da Selic.
Segundo ela, a próxima alta dos juros está praticamente contratada, levando a taxa básica para 14,25% ao ano. A principal dúvida está na reunião seguinte.
“O mercado trabalha, em média, com um cenário de petróleo entre US$ 85 e US$ 90 por barril. Esse também é o intervalo considerado pelo Banco Central em seus modelos. Mas hoje não está tão claro que o petróleo permanecerá nesse patamar.”
A economista disse que a B.Side atribui probabilidade relevante a um cenário em que a commodity permaneça próxima de US$ 100 por barril. Nesse caso, as expectativas de inflação continuariam se deteriorando.
“Com petróleo a US$ 100, enxergamos uma inflação mais próxima de 5,3% neste ano. A inflação do ano que vem também ficaria acima do esperado e as projeções para 2028 piorariam. Isso limita bastante o espaço para cortes de juros”, avaliou.
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Nesse cenário, Damico acredita que o Banco Central teria dificuldade para promover reduções significativas da Selic após o próximo ajuste.
“Se o petróleo permanecer elevado, o BC provavelmente fará a próxima alta e terá pouca margem para avançar além disso. A taxa pode encerrar o ciclo entre 14% e 14,25%.”
Por outro lado, caso as tensões geopolíticas diminuam e o petróleo retorne à faixa entre US$ 85 e US$ 90 por barril, a economista vê espaço para que a Selic recue até 13,25% ao longo do ciclo.
“Esse cenário ainda existe, mas vem perdendo probabilidade diante dos acontecimentos recentes”, concluiu.
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