NESTA EDIÇÃO. Minerais críticos, petróleo, redes elétricas e IA revelam a nova disputa por energia em um mundo mais instável.
Da ONU à ROG.e, a semana mostrou como geopolítica, abastecimento e transição energética estão cada vez mais entrelaçados.
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Enquanto Nova York sediava a 81ª Assembleia Geral da ONU e a Semana do Clima, com discussões sobre inteligência artificial e os desafios de avançar com a eletrificação, o Rio de Janeiro recebeu a ROG.e, onde executivos da indústria de óleo e gás reforçaram que transição e segurança energética precisam caminhar juntas.
Dois debates que podem parecer distintos, mas estão cada vez mais conectados.
Em tempos de guerras, disputas comerciais e reorganização das cadeias globais, o custo de depender de petróleo e gás vai ficando mais evidente — e não apenas por causa do clima.
Na ONU, o presidente Lula (PT), que concorre à reeleição em outubro, colocou a soberania no centro do discurso de abertura: ao mencionar minerais críticos e terras raras, afirmou que o país tem recursos dos quais o mundo precisa, mas que o acesso às reservas brasileiras deverá vir acompanhado de agregação de valor, transferência de tecnologia e atendimento a setores estratégicos nacionais.
A fala do presidente brasileiro antecedeu a de Donald Trump, que usou o espaço para ameaçar usar força militar na América Latina. (DW)
Lula também reafirmou que o Brasil continuará explorando novas fronteiras de petróleo, inclusive na Margem Equatorial, ao mesmo tempo em que prometeu levar adiante o mapa do caminho para a descarbonização da economia brasileira.
Uma mensagem que resume bem uma das principais contradições da política energética brasileira e do plano de governo de um eventual Lula 4: ampliar a oferta de petróleo no curto e médio prazo enquanto se tenta construir uma economia menos dependente dos combustíveis fósseis.
Por falar em mapa do caminho, a Alemanha apresentou nesta semana o roteiro para reduzir a dependência de petróleo, gás e carvão até 2045, apostando em eletrificação, renováveis e conversão de termelétricas a gás para hidrogênio.
O argumento também é econômico: em 2024, os combustíveis fósseis ainda respondiam por 65% do consumo de energia alemão. O país importava 98% dos derivados de petróleo, 95% do gás natural e todo o carvão mineral, com uma conta de € 76 bilhões naquele ano. O conflito que os Estados Unidos desencadeou no Oriente Médio tornou essa exposição ainda mais cara.
Segurança energética em tempos de crise
A ameaça de Trump de suspender as exportações de diesel colocou em evidência a dependência brasileira de fornecedores externos justamente antes do período de maior demanda pelo combustível.
Em julho e agosto, os Estados Unidos responderam por 68% das importações brasileiras de diesel. A Petrobras diz ter cargas suficientes para outubro e já negocia com refinadores indianos como alternativa.
Na ROG.e, a presidente da estatal, Magda Chambriard, associou diretamente as tensões internacionais à decisão da companhia de buscar maior autossuficiência no refino.
Em meio a incertezas no mercado de diesel, o presidente da Frente Parlamentar do Biodiesel (FPBio), deputado Alceu Moreira (MDB/RS), tenta emplacar a venda direta do biocombustível.
Uma emenda de Moreira à Medida Provisória 1391/2026, editada pelo governo para ampliar as subvenções aos produtores e importadores de diesel, autoriza a comercialização direta com revendedores varejistas, além da possibilidade de instalação de bombas destinadas ao biodiesel puro (B100).
Enquanto isso, a Petrobras Biocombustível se prepara para um possível aumento da mistura de biodiesel de B15 para B17 em 2027.
Também no Rio, o presidente da Shell Brasil, João Santos Rosa, defendeu que segurança energética e transição sejam tratadas conjuntamente, em um processo que levará décadas e dependerá de estabilidade regulatória e investimentos.
“Nós estamos num mundo de adição de energia. O Brasil vai precisar de muito mais energia nos próximos 25 anos do que produz hoje. Essa energia vai vir do óleo, do gás, das renováveis, do hidrogênio. Precisamos de todas, todas desenvolvidas de modo responsável, seguro e com previsibilidade de resultados”, disse Rosa à eixos na primeira entrevista exclusiva após assumir o cargo em agosto.
Especialistas ouvidos pela eixos na ROG.e também destacaram que guerras e ataques a instalações energéticas passaram a incorporar uma variável adicional ao cálculo dos projetos: quanto custa proteger portos, oleodutos, redes elétricas e outras infraestruturas críticas?
Rotas de transporte e ativos de energia passaram a ser simultaneamente instrumentos de pressão e alvos em conflitos. Leia na matéria de Gabriel Chiappini
A semana na eixos
Curtas
Prorrogação de subsídios. Com a continuação da alta global nos preços dos combustíveis, o governo brasileiro deu sinais esta semana de que vai estender e ampliar as subvenções em vigor. O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, confirmou na quinta-feira (24) que a subvenção ao diesel seguirá em R$ 2,12 por litro por mais 30 dias.
Diesel no Nordeste. A Acelen recebeu autorização para ampliar sua capacidade de produção de diesel S10 e vai injetar mais 30 mil metros cúbicos por mês no sistema Nordeste.
- “Hoje falamos de uma capacidade de 12.400 metros cúbicos por dia, só do S10. Estamos há dois meses com processo na agência reguladora buscando ampliação para 13.700”, afirmou o diretor Comercial, Josué Bohn, em entrevista ao estúdio eixos durante a ROG.e 2026.
Sim, elas existem! A iniciativa Sim, Elas Existem! divulgou na quinta-feira (24) a lista de indicações de mulheres para cargos de liderança no setor de energia. O documento reúne o perfil de 577 mulheres qualificadas e será entregue às candidaturas à Presidência da República. Os nomes foram indicados voluntariamente por profissionais e instituições do setor.
Artigos da semana
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Por que a energia ficou mais cara e como o consumidor deve reagir Avalanche de encargos, déficit de potência e PLD acima de R$ 300/MWh pressionam consumidores. Gestão especializada de risco e contratos é caminho para preservar competitividade, escreve Tiago Silveira
Gas Release no Brasil: mais concorrência sem comprometer o investimento Programa da ANP protege produção própria da Petrobras e foca no gás de terceiros, com leilões anuais entre 2027 e 2030. Experiência europeia mostra que o mecanismo deve ser transitório e acompanhado de acesso à infraestrutura, escreve Flavio Menezes















